Dores de crescer

Em tempos, a minha bisavó ensinou-me tudo o que sei.
Através do piano, apresentou-me à música. Lembro-me do teclado refletido nos óculos gigantes que usava, sempre que toco.
Ensinou-me a coser, e ainda hoje calço o dedal quando preciso.
“Um homem prendado vale por dois”, dizia ela, orgulhosa.
Também me ensinou a escrever.
Através da poesia que escrevia, ensinou-me a escrever e mostrou que tudo na vida dá um poema.

Ela ensinou-me a passar para o papel o que a mente grita mas o coração cala. Incentivava-me a escrever sobre o que sinto, para que nada ficasse por sentir.
Explicou-me que escrever sobre o que sentimos é a melhor forma que temos de nos desapegarmos das emoções que nos contaminam ou de as honrarmos, eternizando-as.

Ao contrário da escrita, sempre fui silenciosamente sentindo.
Fui aprendendo, dando demasiado peso ao que não o merecia e esquecendo-me de dar oportunidade ao que realmente pedia para ser sentido.
Sou uma espécie de analfabeto linguístico que, poeticamente, sente. Mas acho mais interessante quem diz coisas certas por palavras erradas do que o contrário.

A minha irmã, há pouco tempo, escreveu sobre as dores de crescimento, aquelas que temos quando estamos a crescer, que desaparecem quando envelhecemos para dar lugar às dores de crescer. É dessas que tenho sentido. São dores de quem já não consegue crescer mais em altura, por isso tem de o fazer para dentro.
Acho que este texto é sobre essa implosão que já não tem mais espaço para caber em mim.

Temos uma necessidade inerente à nossa existência de procurar constantemente um propósito para justificar o facto de existirmos. Como se estivéssemos sempre à procura de poesia em nós, na esperança de que ela nos dê a certeza de que faz sentido estar aqui. É exatamente sobre isso, sobre ser mesmo sem saber bem porquê, que fala o poema de viver.

Quando me lembro dos momentos em que falámos sobre poesia, sobre a arte de a escrever, percebo que ela nunca me deu um papel e uma caneta para a mão. Hoje percebo que a minha bisavó nunca me tentou ensinar realmente a escrever poesia. Através do que escrevia, ensinou-me a sentir como um poeta, e que só assim o poema nasce.

Sebastião Ogando
e mais uma dor de crescer.